Opinião

Algumas decisões estratégicas transcendem as esferas da engenharia e da logística, transformando-se em escolhas com potencial para moldar o desenvolvimento regional por décadas. A eventual mudança no traçado da Ferrovia Transnordestina, que poderia realocar o ponto de integração com a Ferrovia Norte-Sul de Porto Franco para Guaraí (TO), representa uma dessas encruzilhadas.

Embora não haja uma deliberação final, e o Ministério dos Transportes tenha apenas confirmado a análise de estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental, é exatamente este o período crucial para que o Maranhão se posicione.

A questão não se resume a uma disputa territorial com o Tocantins, pois cada estado legítima e justificadamente defende seus próprios interesses. O inaceitável, contudo, seria a inação do Maranhão diante da iminência de uma reorientação para um projeto de infraestrutura de tal magnitude.

A relevância de Porto Franco no cenário logístico nacional não é fortuita. Sua posição estratégica, a confluência com a Ferrovia Norte-Sul e sua aptidão natural para atrair investimentos consolidaram o município como um polo essencial para o escoamento da produção agrícola e industrial da região do Matopiba. Com base nessa expectativa, empresas realizaram aportes, empreendedores delinearam planos e a comunidade local vislumbrou novas perspectivas de emprego e desenvolvimento. Se a interligação da Transnordestina for transferida para o Tocantins, não se alterará somente um traçado: uma parcela significativa do futuro econômico do sul do Maranhão poderá ser desviada para outros caminhos.

É inquestionável que a análise técnica deve predominar. Projetos de tamanha envergadura demandam um planejamento rigoroso, focado em responsabilidade, eficiência e sustentabilidade. Contudo, os critérios técnicos também impõem a consideração dos impactos econômicos, sociais e estratégicos decorrentes da decisão. Não se trata apenas de quantificar quilômetros de trilhos, pontes ou túneis; é fundamental mensurar o potencial de desenvolvimento regional inerente a cada opção.

O estado do Maranhão beneficia-se de uma localização geográfica estratégica, de um corredor ferroviário já estabelecido e de uma capacidade intrínseca de conectar diversas cadeias produtivas. Desprezar essa vantagem representaria o desaproveitamento de uma oportunidade cuidadosamente construída ao longo de décadas.

Impõe-se, agora, a união de esforços. O Governo do Estado, a bancada federal, os prefeitos, o setor produtivo, as entidades empresariais e os representantes da sociedade civil devem monitorar atentamente este processo. É imperativo apresentar estudos, argumentar tecnicamente pela manutenção do projeto em Porto Franco e evidenciar que tal escolha não beneficia apenas o Maranhão, mas contribui diretamente para a eficiência da logística em âmbito nacional.

Grandes projetos de infraestrutura são, frequentemente, catalisadores que determinam o rumo de regiões inteiras. Eles atraem novas indústrias, dinamizam a economia, incrementam a arrecadação e criam postos de trabalho. Contudo, quando estes empreendimentos desviam-se de uma localidade ou estado, deixam um vácuo de oportunidades de difícil reparação.

Ainda há margem para intervenção. Nenhuma decisão foi finalizada.

No entanto, uma certeza permanece: o Maranhão não pode se resignar a observar, passivamente, o trem do desenvolvimento desviar seu percurso.

Pois, uma vez que este ‘trem’ segue adiante, raramente retorna.